Entrava naquele avião na certeza de que regressaria exatos 9.096 (Nove mil e noventa e seis) quilômetros para o que havia deixado pra trás. A viagem seria longa, mais precisamente 11h e 30min, por isso havia escolhido sair de lá a noite, na esperança que passasse mais rápido, escala direto para São Paulo e depois retornaria a Londrina, para a sua antiga residência, para o seu passado, mas de uma coisa tinha certeza, voltava mais forte, mais madura, e sem receios ou medo do que encontraria, na verdade ela nunca se isentou das notícias/mudanças em relação as pessoas que faziam parte do seu meio, isso o incluia.
Sabia que já tinha um tempo que a parceria dele com Sorocaba tinha acabado. Quem diria! - E que eles não estavam mais em Londrina, residiam agora em São Paulo. Também sabia que ele namorava uma antiga namoradinha, depois de ter pegado metade do Brasil, mas nunca buscou se aprofundar nesse sentido. Os pais continuavam seguindo seus passos, a irmã tinha se tornado uma mulher linda, formada em moda como sempre sonhou. No fundo estava feliz por todos eles, quanto a ela, também se sentia extremamente satisfeita com o que tinha se tornado. Ah, como é bom o recomeço. Pensava. Nesse momento estava indo para Londrina e não teria o que temer. Não se cruzariam, era um cantor bem sucedido, e ela naquele momento era uma pessoa extremamente comum e estranha em um país antigo.
Lembrava quando fez o inverso, os medos e receios que sentia do recomeço. Tão assustada, tão machucada...agarrou aquela oportunidade sem receios. Tinha amizades com antigos colegas que fez enquanto estudou fora na infância e adolescência, e seu professor orientador também lhe deu força e conseguiu logo ingressar no mercado de trabalho Europeu. Quem diria? - Focou tanto no trabalho, tanto que se não fosse a beleza da cidade que escolheu para viver, não teria se dado um minuto de folga, e conseguiu sua mini fortuna nesses longos oito anos, com orgulho de nunca precisar nesse momento da herança de seu pai, ou de qualquer ajuda financeira do Brasil. Napólis era um encanto a parte. Acolheu suas fragilidades e a fortaleceu, inclusive para esse momento, onde a mulher que tanto lhe deu, tinha infelizmente, data para partir.
- Ah Sônia! Porque tão cedo? Você ainda é tão jovem...lamentava pela mulher que lhe criou e a qual tinha retornado a chamar de mãe tão naturalmente. Lamentava o fato de ter passado tantos natais longe dela, de não ter acompanhado o casamento do irmão, o nascimento dos sobrinhos, as vitórias de Augusto como profissional, mas agora retornava, pensando ainda em Pietro e Matteo, mas na certeza de que ele era exatamente como ela, ciente de suas dores, capaz de guardá-las para sempre sem demonstrar mais sofrimento. Possuíam o dom inabalável da fortaleza, e ria lembrando do seu sobrenome que fazia jus exatamente a isso Fortezza.
Na tranquilidade da madrugada adormeceu, sabendo que quando acordasse, tudo seria novo naquele mundo velho. Ansiava por vivê-lo da melhor forma possível, por ela, pela sua mãe.
- Luan! Você não vai acreditar no que eu tenho pra te dizer! - Falava eufórica no telefone.
- O que houve Princesa? - Ele nunca tinha chamado mais ninguém de 'meu amor'.
- Eu consegui falar com a arquiteta, vamos nos ver em breve!
- Mas ela não mora fora do país?
- Pasme, mas na hora que liguei ela estava embarcando para o Brasil e disse que quando chegasse aqui entraria em contato comigo.
- Nossa, isso é ótimo!
- Quero que você esteja junto, afinal a casa é sua...
- Será nossa um dia. - Sorri e percebe o sorriso dela do outro lado. - E ó, acho que minha mãe também vai querer os serviços dela, então já pegamos o pacote todo.
- Perfeito amor! Você terá o resto dos dias de folga?
- Uhum, depois da gravação, sou todo seu. - só consegue ouvir a risada do outro lado.
Maria Cecília sonhava que estava no antigo orfanato em Londrina, acabando de pintar a casa na árvore, seu primeiro projeto, tão simples mas cheio de significados fazia calor, Augusto tinha ido pegar água para ambos, mas ele também estava lá, sujo de tinta em volta a um silêncio interior cheio de dúvidas, absorto em um abismo, em seguida vira concentrado para ela, e perguntava com receio: - Maria Cecília, mesmo depois de tanto tempo longe, você ainda me ama?...Batidas de leve no seu ombro a despertam.
- Signora, Signora? - Ela abria os olhos lentamente - Mi scusi, ma siamo appena arrivati in Brasile. A aeromoça acabava de avisar que haviam chegado, pegou sua bolsa de mão e partiu para o desembarque.
Barulho, movimentação, palavrões. Isso é Brasil! Pensava rindo enquanto aguardava a sua bagagem. Havia trazido pouca roupa, aproveitaria que estava em São Paulo e compraria algumas coisas por lá mesmo, afinal, estava vestida com seus tons pesados que tanto amava, mas ainda assim quentes para o Brasil, precisaria de algo mais leve. Enquanto processava tudo isso, lembra da ligação que recebeu antes de sair. - Nossa, seria bom retornar, eu não sei de que parte do país a pessoa é, se fosse aqui em São Paulo seria perfeito, eu adiaria a volta para Londrina por uns dois dias e resolveria o início desse trabalho logo.
Augusto tinha pedido que ela ligasse de imediato para ele quando chegasse, mas ela resolve tratar logo dessa pendência e ir para Londrina mais aliviada. Pega o telefone e disca, parece que a pessoa ansiava por isso, pois atende de pronto!
- Oi senhora Fortezza! Que bom que retornou a ligação...
- Pois é...Jade - falava o nome em dúvida com medo de ter errado pois não havia salvo - eu acabei de desembarcar em São Paulo e entrei em contato logo porque daqui irei para Londrina e não sei de que parte do país você é, apesar que o DDD é daqui mesmo de São Paulo...
- Isso, estamos em São Paulo! E disponíveis para você nos encontrar quando quiser...- não continha a euforia.
- Perfeito! Mas antes de mais nada, não precisa me chamar de senhora, apenas Maria Cecília - ria sutilmente - e eu preciso achar um hotel antes, não esperava que ia ficar por no mínimo dois dias, então como são quase meio-dia, e preciso resolver essas pendências - e ela não queria ficar dois dias em São Paulo - podemos nos ver amanhã? Eu não conheço nada por aqui, passei muito tempo fora e...então você me pegaria no hotel?
- Sem problemas! É só passar o endereço.
- Enviarei assim que conseguir um! Até mais!
- Até! Fico no aguardo. - LUAN! Ela, grita alto - Amanhã almoçaremos com a arquiteta!
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