domingo, 7 de junho de 2020

O inesperado

Não ligou para Augusto, passou uma mensagem rápida via Whatsapp dizendo que havia chegado e que estava a procura de um hotel, quando encontrasse ligaria para ele. Também lembrou de notificar Matteo, mas ligaria com mais calma em seguida.


Bom, se não fosse a doença de sua mãe ela diria que havia desembarcado com muita sorte.  - Ah, quem sabe ainda não há esperança pra ela? - pensava. Havia encontrado um hotel perto a um shopping, perfeito para suas compras. Como o Brasil era barulhento, pensava fechando a porta do quarto e desabando na cama, poucas horas que estava ali e seus ouvidos já pediam socorro. - Saudades Itália - pensava triste. Mas sabia que Londrina era mais tranquila que São Paulo. Liga para Augusto.

- Finalmente! - Ele atende impaciente - como assim ficar em São Paulo dois dias?

- Hey, calma que vou explicar.

- Estou aguardando Dona Maria Cecília. - Ah o Augusto não muda...

- Olha, quando eu saia da Itália, recebi uma proposta de trabalho aqui. 

- Trabalho? Como assim? 

- Pois é, não sei, alguém conseguiu meu contato, pelo que entendi é uma casa, acabaram de se mudar, ou vão reformar, não sei direito ainda, mas eles são daqui e topei me encontrar logo antes de ir para Londrina, e também achei melhor porque...

- Eu sei que você é viciada em seu trabalho, graças a Deus! - Lembrava dos outros vícios dela anos atrás quando usava a figura de Paloma Fortezza para se esconder de suas dores, trabalho era mil vezes melhor que isso.  - Então está tudo ótimo, quando você chegar em Londrina me avisa, eu mesmo vou te pegar, tudo bem?

- Perfeito! Saudades apertando aqui. - Passa a mão no peito. - E a mamãe? E o Arthur?

- Também estou ansioso para te ver - era sincero - Sônia está lidando bem com tudo, ela é médica, você sabe...já o Arthur está sofrendo com tudo, inclusive com medo de te encontrar...

- Não há motivos, passou. 

- Ele ainda se atormenta muito, mas vocês terão tempo. E o Matteo? - não poderia deixar de perguntar.

- Ele é forte...mas pessoalmente conversamos. Até daqui a dois dias, ou antes! 

- Te esperamos! 

- Ai, preciso de um banho! - Toma e desaba, acordando só na hora do jantar, lembrando que nem havia falado com Matteo nem com a cliente, a tal Jade. - Negócios primeiro!

Deixa uma mensagem no Whatsapp da cliente, estava cansada demais para ligar, envia o endereço do hotel e confirma que era realmente para almoçarem, no local de preferência deles. Retifica que se possível levassem a planta do local, fotos, todo material que tivessem reunidos para ela conhecer e poder em cima disso direcionar o trabalho. 

"Meu noivo também vai comigo, afinal a casa e dele, bem, será nossa e os seus pais também tem interesse nos seus serviços". Escreve em resposta.

"Perfeito, até amanhã querida!". Finaliza, estava cansada demais para se prolongar. Inclusive para falar com Matteo, deixando apenas uma mensagem de áudio rápida falando que estava tudo bem e que precisava dormir, sabia que lá ainda não era noite. Sentia saudades do pequeno Pietro, mas ligaria em um momento oportuno e falaria em chamada de vídeo com o mesmo. Adormece e sonha dessa vez num corredor escuro, com uma luz ao fim do túnel, era Sônia que estava lá, queria alcançá-la mas uma mão a impedia, mão cujo toque ela jamais esqueceu. 

Acorda às 10h da manhã com o barulho de muitas notificações. - MEU DEUS! Como é tarde, como dormi! Preciso correr! Não teria tempo de comprar nada, toma um banho, procura uma roupa formal, bom, todas suas roupas eram formais, mas aquele vestido azul turquesa de mangas curtas e cumprimento na altura dos joelhos lhe caia bem. Calça um salto nude, coloca seu relógio, anéis, pulseiras, era vaidosa. - Ai que saudades dos meus chapéus - suspirava. Se olha no espelho, o tempo havia sido generoso com ela, não tinha mudado quase nada por fora, apenas os cabelos mais louros como se tivesse trazido neles o sol da Itália. Quem diria que um dia aquela mulher que observava no espelho tinha saído de casa seminua? - Ah terrível juventude...pega sua maleta de trabalho, com seu Ipad, nele poderia mostrar os estilos com que trabalhava, as decorações diversas, o que já havia feito no exterior, ela sabia que a demanda era de um poder aquisitivo alto, então, mostraria o seu melhor, como sempre fez. 

Até que resolve ver a hora, quase 11:30 da manhã. - As mensagens! A cliente, Jade era a primeira, os outros teriam que esperar. "Estamos a caminho". Tinha enviado fazia alguns minutos. "Já estou a espera". Responde.

Sentada no hall de entrada vendo alguma revista qualquer, sente um leve toque no seu ombro.

- Maria Cecília? 

Ela olhava aquela mulher esguia, jovem e bonita a sua frente, sorri e responde - Jade, suponho? Levanta para cumprimentá-la. Como me achou tão fácil? - sorri.

- Pela elegância e sofisticação. Percebi fácil que era você. E só um comentário, você é mais jovem do que pensei! - Admitia.

- Ah, bondade sua! Vamos? - pegava sua bolsa e ficava ao seu lado.

- Claro, meu noivo está ansioso por vê-la. Ele só não pode descer aqui comigo... - começava a explicar.

- Trânsito, eu entendo perfeitamente. - Ou ele não queria se expôr, sabia que as pessoas ricas no Brasil tinham receio até da própria sombra. A garota ao seu lado era tímida, mas de sorriso fácil, logo se dirigem a um carro preto e percebe um motorista particular no volante que não deixa de cumprimentá-la e observar também sua desenvoltura. Ele abre a porta para as duas, Jade entra primeiro, tomando espaço ao lado do seu noivo e ela senta de frente para eles. Organiza-se no banco, ajeita o seu vestido, coloca a bolsa ao seu lado e olha para cumprimentar o homem que também era seu cliente. Susto, não podia ser. Mesmo que passasse anos ela jamais esqueceria aqueles traços, mesmo estando de óculos escuros, dentro de um estilo totalmente diferente do xadrez de sua época, ou das camisas em corte 'V', ela jamais esqueceria...o olhava com atenção e esperava a sua noiva fazer as vezes da etiqueta.

- Meu amor, essa é Maria Cecília Fortezza, a nossa futura arquiteta. - sorri. 

Ela observava Luan a todo momento, viu que o nome lhe causou choque, afinal fazia tantos anos...com a maior naturalidade do mundo, ela se desfez dos óculos escuros, estendeu a mão e sorriu com segurança dizendo: - Como vai Luan? Confesso que depois de tantos anos fora, não sabia que você seria a primeira pessoa conhecida que eu encontraria. - cumprimentam-se.

Para alivio de Luan que ainda estava boquiaberto diante daquela mulher tão familiar e estranha ao mesmo tempo, Jade toma o rumo: - Vocês se conhecem? - parecia não acreditar. Ambas esperavam ele falar e Jade o cutuca para ele sair daquele transe momentâneo.

- É, bem...assim...Nossa! - Ele não conseguia organizar uma frase, continuava observando aquela mulher a sua frente, que fez parte do seu passado, lembrava a Paloma, a ousadia, depois a simplicidade da Cecília no orfanato, e agora a exuberância e elegância se faziam presente. Lembrava rapidamente do que o Arthur fez, de como acabaram e por fim, da sua inocência provada por Augusto meses depois que o procurou pessoalmente para explicar tudo.

- Eu entendo Luan! Também estou surpresa. - Sorri gentilmente.

-  Cara, não dá pra acreditar! - Ele fala por fim.

- Agora eu estou curiosa. - Jade replica.

- Nós moramos na mesma cidade - Cecília responde - Londrina, anos atrás, meu irmão era amigo do Luan. 

- Nossa! O mundo realmente é pequeno - Jade acrescentava.

Ou apenas o destino começava a agir conforme suas regras. 







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