domingo, 7 de junho de 2020

Memórias

Um filme passava por sua cabeça, Sônia era uma mulher espetacular. Nunca a julgou, sempre esteve ao seu lado mesmo quando ela foi a sua maior vergonha. Bem, até Arthur ter tomado seu posto. Ela ria. Sim, ria porque o tempo é senhor de todas as coisas...e se ele não cura em sua maioria ele ameniza muito dos nossos sentimentos. Havia saído de casa pela manhã, para entregar seu projeto incrível, havia conquistado uma fama espetacular na Europa, começou com pequenos trabalhos e logo se viu com projetos monumentais. Construiu com seu talento sua própria fortuna e sucesso. Claro, tudo isso bem alicerçada com muitas lembranças do seu passado, que não fez questão de apagar nenhuma, das mais profanas, as mais doces e doloridas. Faziam parte do que ela era. 

Absorta em suas lembranças em meio as paisagens italianas que tanto a cativavam, lembrava da sua última conversa com Sônia, do apoio que recebeu ao decidir um novo recomeço, longe de tudo, da docilidade que a tratou, da clareza ao dizer que perdoava o irmão por tudo, também perdoava o...não conseguia ainda pensar em seu nome, mas não havia apagado a imagem do garoto daquela época da sua mente, hoje um homem de sucesso. Perdoava a todos e seguia em paz, sabia o sacrifício que seria, os natais, as festas de fim de ano, as datas comemorativas, o casamento da melhor amiga com o irmão, as conquistas pessoais de Augusto e a alegria dele ter encontrado um amor para dividir a vida, o nascimento dos sobrinhos, tantos momentos...deixar seus dois amigos, Bia e Augusto, deixar seu Sebastian - lembra com dor quando ele adoeceu e não resistiu, a mesma dor quando soube que o orfanato fechou... Perdeu muito disso tudo, mas não se arrependia, ela se fez forte, sobreviveu, e voltaria pela Sônia, não iria desperdiçar seus últimos meses de vida, faria com que fosse os melhores, por ela, por todos ao seu redor. 

Chega em casa e a criança de olhos claros vem ao seu encontro gritando: Papai, ela chegou! - Gritava pela casa se jogando em seus braços e girando as gargalhadas.

- Estava com saudades de mim Pietro? - O abraça forte como se fosse o último enquanto a criança linda de 5 anos a abraçava com força e afirmava com um leve balanço na cabeça. 

- Eu também estava com saudades - um homem alto, forte de cabelos loiros toma forma a sua frente e dá um leve selinho em sua boca enquanto a criança comemora o feito. Como foi seu dia? Suponho que satisfação foi o mínimo que sentiu, eu vi a sua entrevista na TV e...

- Ai, nem me lembre, foi surreal, foi a melhor coisa que fiz na vida - lembra com dor agora da casa na árvore para as crianças.

- Não tenho dúvidas! Mas algo está te afligindo, você está...preocupada? - Como em poucos anos ele a conhecia tão bem?

- Estou, mas depois do banho e do jantar a gente conversa. E o cheiro está maravilhoso!

- Vai lá mi amor, te esperamos, vem com o papai terminar o jantar?

A criança salta em seus braços sem nem pensar. - Tudo ficará bem, estou ao seu lado. - Ela não tinha dúvidas disso.

Subia as escadas com um leve pesar no peito, fazia apenas um ano que dividia aquele espaço com Matteo. Lembra de como tudo começou, antes de se envolverem como casal, ele administrava o vinhedo da família, mas também entendia de arquitetura, de música, de dor e sofrimento...Havia ficado viúvo, perdeu a esposa por uma enfermidade banal,, infecção e ficou sozinho com o filho. Se conheceram quando Cecília foi lhe prestar serviços, ele estava se mudando para um espaço menor e queria a ajuda da arquiteta que além de ser bem paga, tornou-se amiga e querida por seu filho. 

Pietro era um encanto, doce, afável, e muito esperto. Cecília lembrava que tinham semelhanças, ambos não tinham a mãe biológica e era triste, então supriu até aquele dia a ausência da mãe dele...cuidou dele e do pai, mas nunca escondeu suas raízes, Matteo sabia de tudo de sua vida, suas dores e amores, suas dificuldades e medos, inclusive em se relacionar, era uma mulher bem sucedida, não podia negar e ele ofertou seu coração, por um tempo, depois sua casa, e seu carinho, e ela aceitou, era adulta e decidida, mas talvez...nunca tenha criado raízes ali mesmo, e Matteo bem sabia disso.

Era capaz de ouvir o som da lareira que projetou lá embaixo, era uma sensação estranha de que nunca tinha pertencido ali, mas que foi um tempo necessário, Matteo foi necessário nesse último ano, assim como Pietro...como doia saber que não o veria tão cedo...mas era chegada a hora. Jantaram, contaram histórias, riram, e logo a criança dormiu angelicalmente. Era hora da conversa.

- Cecí, pode me contar agora como foi seu dia?

Ela começa do início, passando por todos os fatos até chegar ali, completamente imersa no que haveria de encontrar, e no que estaria deixando, para sempre talvez?

- Você entende que eu não posso deixar de estar esses seis meses com ela não é?

- Cecí, você foi uma das melhores coisas que nos aconteceu nesse tempo, mas... - olhava compreensivo demais - você nunca pertenceu a nós. É como se o destino algum dia fosse te chamar, e chamou.  - Ela lembra das palavras do Padre mais cedo. - Nós te amamos, e faça o que for necessário para o momento e o após. 

Ela encarava aquele homem forte a sua frente, assim como ela acostumado com as dores que a vida lhe causava, aceitava-as de bom grado, sabia de cada etapa de sua vida, ambos sabiam, e ambos também sabiam que tudo que viviam até ali era cercado de incertezas, mas tinham Pietro, como um laço puro e simples de união, e nada poderia tirar aquilo. 

- Mas e o Pietro? - Ela perguntava preocupada. 

- Bom, ele irá sentir falta, claro, mas talvez não seja um para sempre, temos a internet e você sempre o terá quando quiser. 

- Eu não sei como encontrarei as coisas por lá, na verdade eu sei, mas não sei se realmente ficarei, eu construí uma vida aqui, tem vocês e...

- Não se luta contra o destino, esteja em paz, vá cuidar do que é seu, você já cuidou tanto de nós e serei sempre grato, por tudo, pelo Pietro e pela companheira que foi nesse período todo, precisávamos um do outro, o tempo vai dizer se realmente continuaremos ou não, se esse for nosso destino não tem como escapar, assim como se a volta for o seu, a permanência será inevitável. Nós te amamos. - A abraça por fim.

- Eu também amo vocês, muito. Obrigada!

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