Era mais um dia de sol e muito frio, incrível como não tinha acostumado a isso ainda. O sol latente no céu azul e a brisa gélida que fazia todos se agasalharem com roupas pesadas em suas fibras seus tons para se protegerem. Nossa Cecília! Quase oito anos e você ainda não acostumou? - Pensava rindo enquanto caminhava rumo ao seu carro. De Napólis onde morava a Roma era um salto, e como ela amava atravessar aquela cidade linda e histórica de prédios fascinantes todos os dias, para uma boa arquiteta, era um bálsamo diário de inspiração. Dirigia com os cabelos ao vento, o frio queimando sua pele, não se importava, havia dores maiores que aquela e que como sempre não valia a pena lembrar, afinal já havia muito tempo de tudo.
Buongiorno! Buongiorno! Cumprimentava à todos e sorria descompromissadamente! Como ela amava atravessar a praça de São Pedro completamente vazia em relação a outros dias, contemplar aquela imensidão monumental era de uma sensação incrível! Ah como deslumbrar o belo me faz bem! - pensava. Estava indo para a última etapa do seu trabalho que já vinha a meses. A alta cúpula de Roma contratou os seus serviços para uma pequena reforma e sabia que ela era uma arquiteta que transitava por várias tendências, com especialidade no modernismo, mas para preservar o tradicional, o belo, o secular, não haveria pessoa melhor. A arquiteta do Vaticano! Quem diria! Pensava na vida profana que havia levado anos atrás, envergonhada, e hoje conquistava sua redenção longe de tudo, um recomeço digno de céu.
- Ansioso para ver como ficou tudo Padre? - Perguntava sem conter a alegria.
- Claro minha filha! Acredito que seu trabalho é no mínimo digno dos céus.
- Bondade sua! Mas vamos logo ver! - Andava apressada.
A basílica de São Pedro havia sofrido um ato de vandalismo, lamentável e que chocou a todos e o Papa queria que a reforma não perdesse a essência dos séculos. Cecília havia conseguido, tudo permaneceu como nada tivesse acontecido.
- Excelente trabalho! O Papa vai ficar encantado, que Deus abençoe você minha filha, você realmente possui um dom divino. O Padre Gabrielle a elogiava.
- Obrigada Padre, foi um dos trabalhos mais incríveis que pude realizar - lembrava com saudade da simplicidade de uma pequena casa na árvore que um dia planejou e olhava para o monumento a sua frente, como havia chegado longe.
O Padre começava a falar da abertura do local novamente a visitações e celebrações, e que queria a sua presença até que ambos são interrompidos com o toque de um telefone.
Ela olha no visor e era chamada do Brasil...Que estranho, Augusto a essa hora. Atende. - Alô?
- Como vai a minha arquiteta preferida?
- Ah, para! Estou bem aqui em Roma de frente para minha obra final - mal sabia ela o peso daquela afirmação - finalmente acabamos, a basílica está pronta, como sempre foi!
- Uau! Imagino o quanto incrível deve estar!
- Irei te mandar algumas fotos daqui a pouco, mas...- ela sentia um tom de preocupação na voz - o que está acontecendo afinal?
Como ela era esperta, sempre foi! Não adiantava postergar, teria que ser direto, e conhecendo bem Maria Cecília Fortezza, que tinha conseguido a estabilidade emocional que qualquer um invejaria, mas ainda assim isso a abalaria. - É a Sônia...
- O que houve com a Mamãe? - Fala um pouco alto.
- Cecília, eu acabei de avaliar uns exames da Sônia e...ela está com câncer - Era perceptível apenas a respiração pesada do outro lado da linha.
- Augusto - fala com pesar - é grave?
- Muito.
- Quanto tempo?
- Não sabemos ao certo, mas pela minha experiência seis meses no máximo. - Ela treme do outro lado - é no pâncreas, bastante agressivo e eu liguei na intenção de...
- Eu entendi Augusto, eu...só preciso me organizar e...
Era incrível como eles tinham ainda a velha sintonia de em poucas palavras compreenderem o certo a se fazer.
- Esperamos você.
- Então até breve.
O Padre entendia Português e questionou preocupado: - O que houve minha filha?
- A minha mãe Padre, está doente - falava ainda sem acreditar - o médico me ligou e disse que são no máximo seis meses de vida.
- Você vai voltar?! - Perguntava em tom de afirmação.
- Sim, é o certo a se fazer - não conseguia disfarçar o desconforto, ela iria voltar um dia, mas não achava que seria por esses motivos. Nossa, quanto havia perdido nesses oito anos? Se soubesse que ela teria tão pouco tempo de vida talvez...
- Minha filha, se tem algo que não podemos fugir é daquilo que estamos destinados...
E ele estava coberto de razão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário