terça-feira, 9 de junho de 2020

E più mi vorrai e meno mi vedrai (E mais você vai me querer e menos você me verá)

Meu Deus o que foi isso? - Pensava enquanto caminhava elegantemente apressada pelo shopping com algumas sacolas na mão rumo a saída, não tinha comprado muito, conhecendo sua mãe suas coisas deveriam ter permanecido do mesmo jeito, inclusive as roupas. Com certeza teria algo para usar nos próximos meses tranquilamente. Lembrava do susto nos olhos negros de Luan ao ouvir seu nome, do seu total desconforto diante dela, e como graças a Deus ela tinha conseguido se manter forte diante de tudo, diante da mulher linda que ele escolheu para viver e que agora ela estava prestes a deixar sua marca na sua futura casa. - Que loucura! Achei que não ia conseguir manter a firmeza, mas consegui - respirava aliviada. 

Tomava um táxi e dava o endereço do hotel, permanecendo em seus devaneios olhando pela janela do carro aquela cidade que fervia lá fora. - Destino. - lembrava as palavras que havia ouvido um dia antes na Itália - realmente tem coisas que não dá pra fugir, só não achava que seria tão rápido. Como ele continua incrivelmente bonito? Não pode deixar de observar o físico definido, um Luan num porte mais maduro, as tatuagens no braço, a barba que dava um aspecto de maturidade, o cabelo muito mais comprido desde a última vez que o vira, agora negro com luzes preso num modelo viking que dava um ar extremamente sexy. - E ao lado e uma mulher incrivelmente bonita - suspira, imaginando que Jade deve ter sido aquelas meninas de interior, de família, bem estruturada, tímida e que havia conquistado um sonho de uma grande parcela de mulheres que residiam nesse país. Sonho que ela teve um dia nas mãos...- e que ficou no passado - lembrava do quanto demorou para vestir aquela armadura que lhe custaram oito anos, tão necessários para o mundo esquecer Paloma Fortezza, para ela retornar hoje sem receios de que a haviam esquecido de vez, mas o que ela não sabia era que Luan ainda a lembrava, em segredo, no seu mais íntimo, nunca a havia esquecido. E talvez ela descobrisse daqui a um tempo que também não teria feito isso com sucesso. 

- Moça? - o taxista chamava sua atenção. - Chegamos!

- Ah, perdoe minha distração, estava pensando alto - falava tranquila percebendo que sua educação chamava a atenção daquele taxista. 

- A moça parece e não parece ser daqui, se veste como a mulher de um príncipe - comenta humildemente.

- Ah - ri compassiva - eu acabei de chegar de fora do país depois de oito anos fora - tira o dinheiro da bolsa e o entrega. 

- Muito tempo! Mas quando é o destino da gente voltar né?  - ri dando o troco enquanto ela abria a porta. - Que Deus lhe ajude!

- Obrigada, ao senhor também. - E mais uma vez a palavra destino aparecia em seu caminho. Mas não teria tempo para pensar mais, viajaria na madrugada e logo cedo estaria em Londrina, nos braços de quem realmente precisava dela no momento, Sônia e sua família. Por hoje o trabalho esperaria, e se tinha algo que ela havia aprendido era a se desligar facilmente de certas lembranças. Só não contaria que as lembranças agora eram reais, e se tornariam cada vez mais presentes. 

No caminho de volta hoje mais cedo...

- Luan, o que houve? Porque você ficou todo desconcertado hoje mais cedo?

- Foi uma surpresa! - admitia - eu não sabia que seria alguém tão conhecida. 

- Mas isso é ótimo, porque facilita a relação no trabalho. Só achei ela muito profissional, o que não é ruim - se corrige - mas ela não ter aceitado nosso convite, sendo você um conhecido do passado - Luan permanecia em silêncio, ele sabia que Cecília não era idiota e não aceitaria nunca um pedido desse, Jade percebendo seu silêncio continuava respondendo ela mesma seus questionamentos - bom, teremos oportunidade e mal posso esperar os próximos contatos! Vou tomar um banho e hoje a gente pede comida, pode ser? - ele sorria concordando - não esquece de mandar a planta par ao email dela.

- Vou fazer isso agora. - pegava o celular e enviava o arquivo para o número dela, não pode deixar de ver a sua foto de perfil, cabelos ao vento com uma paisagem linda por trás, o verde contrastava com o loiro dos seus cabelos. Só não esperava que ela respondesse de imediato com um "Obrigada Luan, nos vemos em breve.". - Tão natural sua resposta que só pode enviar um emoji, não saberia o que dizer, não saberia como agir diante de tudo isso que estava para viver, e tinha muito receio em relação a si mesmo, já que ela do contrário dele demonstrava um autocontrole fora do normal. - Droga! - Pensava - lembrava do passado, de quando soube que ela partiria e lembra de não ter se importado, afinal não sabia da armação do irmão dela, mas lembra nitidamente quando alguns meses se passaram e Augusto o procurou, dos fatos que se esclareciam bem a sua frente, queria falar com ela, pedir desculpas, mas ela havia deixado a ordem de não fornecer nenhum contato seu para ela e que o perdoava. 

- Augusto, como eu fui idiota! - lamentava desesperado - Por favor, me dá o telefone dela, eu preciso pedir desculpas, eu preciso me redimir...

- Luan - ele falava sério - foi um pedido dela, eu não posso quebrar. O que ela permitiu dizer foi que está na Itália e que te perdoa, que te entende, e que você siga em frente. 

- Como posso seguir em frente? Eu não confiei nela o suficiente e agora ela está do outro lado do mundo e não quer falar comigo...

- Luan - sentava ao seu lado - eu conheço a Maria Cecília a bem mais tempo que você e de verdade? Ela precisa desse tempo, Sofreu muito com a rejeição do pai, quando voltou teve aquele trágico acidente onde descobriu toda a verdade da vida dela, filha da empregada, filha de um romance proibido, criada pela esposa do seu pai, traída e de qual recebia todo o amor que pode conhecer até aqui nesse mundo, lidou com as canalhices do irmão - do qual nós fomos todos vítimas - e principalmente, assumiu uma personalidade que tem suas consequências "Rainha das noites de Londrina" é um fardo muito pesado, que ela não quer que você carregue. - era sincero.

- Mas eu não me importo! - falava frustrado.

- Eu sei que não, mas ela se importa com você, com a sua imagem, com sua família, e Luan - respirava profundamente - Maria Cecília na sua primazia é a pessoa mais sensata que já conheci, e acredite ela precisa desse tempo, digamos que ela vai descansar a imagem, sair dos holofotes, ela vai se deixar esquecer - Luan o olha em choque - e isso levará tempo se é que me entende, mas que será fundamental para ela, ela merece um novo recomeço. 

Luan entendia, ela não voltaria tão cedo e ele não poderia expressar nada em palavras, estava completamente destroçado.

- Um último conselho, que eu sei que seria o que ela queria te dizer nesse momento, siga em frente, viva sua vida, cresça na sua carreira, apaixone-se de novo, nada melhor que o tempo, senhor de todos nós e que tudo cura, ou ameniza...e se for o destino de vocês um dia retornarem, não importará os meses ou anos...

- Eu vou esperar por ela - falava convicto.

- Eu sei que vai - Augusto levantava lamentando que ele não havia entendido a profundidade de tudo que aconteceu.

Adormeceu ali mesmo no sofá, sonhando com uma velha casa na árvore, com dois jovens sentados lado a lado, a garota vestia um lindo vestido azul turquesa, o vento balançava seus cabelos loiros mas ela o tratava como se não o conhecesse, fitando o horizonte a sua frente num vazio profundo, deixava uma lágrima cair. Seria assim que ela se sentia então? O destino trataria de mostrar. 


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Se non uccide fortifica (Se não mata, fortifica)

Então como foi isso? Vocês eram vizinhos? - Jade perguntava curiosa, depois que todos sentaram no canto mais reservado do restaurante.

Luan estava perceptivelmente incomodado, constrangido, envergonhado e muito confuso. Cecília percebe a saia justa que o destino havia aprontado e teria que tomar as rédeas da situação. Posicionava os braços delicadamente na mesa e falava como se estivesse cantando uma canção à beira mar, numa quietude e tranquilidade incomum: - Isso já tem muito tempo...- olha sorrindo com os olhos para Jade enquanto Luan continuava a observando incrédulo com sua desenvoltura diante de tudo - ...um outro momento podemos falar sobre isso - sorri para Luan de uma forma natural, sem segundas intenções - agora precisamos focar no trabalho, trouxeram o que solicitei? - assumia agora uma postura totalmente profissional. Enquanto ela aguardava, Jade cutuca Luan, típico movimento para acordá-lo, parecia absorto em um mar de lembranças e confusão.

- Ah, sim! Eu trouxe a planta da casa - tira o papel de uma pasta, ela começa a observar em uma curiosidade profissional enquanto ele falava - e tenho algumas fotos aqui caso queira ver. 

- Acredito que a planta será suficiente, tem como me enviar por e-mail? - tratava diretamente com ele.

- Claro, eu mesmo farei isso. 

Ela concordava e num movimento rápido começam a tratar do seu trabalho: - Bom, o engenheiro fez um bom trabalho com tudo isso, vocês tem bastante espaço, vários cômodos...suponho que já terminaram toda a estrutura? 

- Sim, falta apenas os detalhes que contamos com sua ajuda para isso! - Jade sorria tímida.

- Eu vou precisar contactar alguns profissionais aqui do Brasil, meus fornecedores estão todos na Europa, como devem saber...a menos que queiram algo de lá, podemos dar um jeito - sorria - também precisarei visitar a construção pessoalmente ao longo do percurso.. - é interrompida por Luan.

- Você quer ir lá hoje? - ela faz uma cara de lamentação - Amanhã talvez?

- Não posso Luan, eu realmente tenho pendências em Londrina para esses próximos dias, mas não se preocupe, muito trabalho pode ser agilizado apenas pela planta da residência e também é o tempo necessário para contactar os fornecedores. - falava com uma segurança ímpar - mas para isso preciso saber o essencial, qual o estilo de vocês? - olhava para os dois sempre sorrindo.

- É...eu sou mais modernista, confesso - Jade admitia - mas pesquisando seu trabalho vi que tem uma pegada mais tradicional, o que é a cara do Luan - sorri para ele agora. 

- Então...- ela entendia que a garota queria agradar o seu par - Luan, o que você gosta afinal?

- Eu gosto do simples, do aconchegante e confortável, quero um lugar bonito, chegar em casa e me sentir bem, que tenha traços do que eu curto, música, pantanal, família, calmaria...mas pode ter um toque moderno também - ri admitindo que também curtia o estilo, e isso era evidente pela própria maneira de se vestir, jeans rasgado, camisa solta, cabelo bem maior, seu estilo transitava entre os dois.

- Claro, entendo perfeitamente. - tirava seu Ipad da bolsa- tenho aqui uns trabalhos meus que podem servir de inspiração, e outros diversos que vocês podem selecionar as imagens que mais gostaram, ficará salva automaticamente na pasta de vocês e assim irei traçando umas ideias a partir disso. - entrega o aparelho nas mãos de Luan. 

- Podemos pedir algo para ir comendo enquanto isso? - Jade reclamava, parecia a única com fome ali.

- Por mim tudo bem, enquanto isso vocês podem me dar licença? Preciso ir ao banheiro um instante. - Eles sinalizam que não tem problema, enquanto ela levanta na elegância e calmaria típica das mulheres bem sucedidas do exterior. 

- Luan! O que você tem? Parece que está anestesiado...sei lá! - Jade reclama.

- É o cansaço - mente - e a surpresa também de ser alguém conhecido, foi surreal.

- Mas ela é incrível né? Fiquei muito curiosa para saber mais dela, quem sabe nos tornamos grandes amigas? - Luan gemia por dentro, mas se atentava ao portfólio que ela disponibilizara, realmente era incrível. 

Cecília rapidamente, ao mesmo tempo que a comida chegava. A comida cheirava bem, mas realmente não sentia muita fome, permanecia em silêncio e respondendo apenas algumas dúvidas que os dois clientes a sua frente vez o outra perguntava. Até que seu telefone toca em cima da mesa chamando a atenção de todos, Matteo. 

- Me desculpem, eu deveria ter deixado em silêncio, mas vocês se importam se eu atender rapidamente, é da Itália e...- já havia atendido no primeiro sinal de concórdia de ambos. - Matteo, felice di parlare con te!  - Falava em italiano sem nenhum constrangimento e levantava em seguida se afastando um pouco dos dois.

- O que ela disse? - Luan perguntava.

- Eu só entendi o nome da pessoa que ligou, Matteo... - Jade ria - deve ser o namorado dela - Luan não havia pensado nessa possibilidade, ela era jovem, bonita, tão segura de si, com certeza teria alguém ao seu lado. - incrível o trabalho dela, ela falando italiano, ela é espetacular. - Jade concluía com admiração enquanto Luan apenas acenava e observava ela voltando para a mesa.

- Peço sinceras desculpas, eu realmente esqueci de colocar no silencioso, mas não poderia deixar de atender, precisava dar notícias de minha chegada - sorri.

- Sem problemas! Era seu namorado? - Luan gela com a pergunta de Jade, mas ela parecia não se importar.

Pensa dois segundos para responder, afinal o que Matteo foi para ela? Ou ainda era? Marido? Parceiro? Namorado? Ou apenas um apoio afetivo, o que falaria? - Era uma pessoa especial. - responde por fim, enquanto Luan ficava atordoado com a não afirmativa dela a pergunta de Jade. 

- Bom, acabamos de marcar todas as fotos - Jade entregava o Ipad de volta e observa o prato de Cecília - você mal comeu...

- Ah, desculpa é que foram muitas horas de viagem e o cansaço tiram um pouco a fome. Então irei analisar a escolha de vocês, aguardo a planta via email para poder fazer um projeto piloto e não se preocupem que marcaremos a primeira visita, de acordo com a agenda de vocês, claro. - sabia que Luan continuava na correria de shows. - Luan, preciso do seu contato, irei mandar um questionário para ambos, sobre coisas pessoais que ajudarão no projeto já que estaremos geograficamente distantes no mesmo território, iremos nos contactar pelas vias tecnológicas - lamentava profissionalmente por isso. - Mas darei toda assistência e...

Jade interrompe: - Você pode contar conosco, temos o jatinho não é Luan, e se precisar de hospedagem das vezes que vir, ficará em nossa casa. 

- Obrigada, eu aceito a carona caso coincida algum voo, por exemplo. Mas quanto a estadia - pensa nos pais e irmã de Luan - eu gosto dos hotéis daqui, e me dá mais concentração para o trabalho. - como ela era profissional, pensavam. 

- As vezes que precisar da carona estarei à disposição, mas não posso deixar de perguntar o porque voltou? - Luan pergunta de ímpeto e ela não se surpreende.

- Questões familiares - responde com certa tristeza e ambos notam.

- É algo grave? - Continuava curioso como no passado.

- Sim, minha mãe está com câncer e é grave, deram meses. - o choque e a tristeza no rosto dos dois é notável.

- Nossa, se eu soubesse teria escolhido um tempo melhor para contactar seus serviços. - Jade Lamentava.

- Não, não lamente, trabalhar vai me ajudar muito nesse processo. - era grata no seu tom.

Luan pensava em Sônia, nas poucas vezes que conversaram no passado demonstrava uma docilidade fora do comum, preocupada com os filhos, educada, profissional. - Ela sabe? 

- Da doença? Sim. Que eu estou no Brasil? Não. - ri pela surpresa que faria - acredito que ela achava que eu jamais voltaria por aqui. - admite - mas aqui estou eu. - fala levantando - muito obrigada pela companhia, eu observei que aqui estamos perto de algumas lojas e preciso de roupas, como podem ver. - se olhava como se não estivesse vestida adequada para o novo território que se encontrava. - nos vemos em breve. 

- Janta conosco hoje! - Jade chamava espontânea para surpresa de Cecília e principalmente de Luan. 

- Eu adoraria, mas embarco amanhã cedo e realmente preciso de roupas. Mas ficarei devendo esse convite para uma próxima vez, tudo bem? - alívio da parte de Luan e decepção da de Jade. Dá o giro na mesa e abraça Jade em seguida Luan, o mesmo perfume de antes, ela lembrava bem. - Foi de verdade um prazer e satisfação enormes, darei o meu melhor e espero que gostem. - sorri saindo e deixando o vazio de várias interrogações a seu respeito, em ambos. 












domingo, 7 de junho de 2020

O inesperado

Não ligou para Augusto, passou uma mensagem rápida via Whatsapp dizendo que havia chegado e que estava a procura de um hotel, quando encontrasse ligaria para ele. Também lembrou de notificar Matteo, mas ligaria com mais calma em seguida.


Bom, se não fosse a doença de sua mãe ela diria que havia desembarcado com muita sorte.  - Ah, quem sabe ainda não há esperança pra ela? - pensava. Havia encontrado um hotel perto a um shopping, perfeito para suas compras. Como o Brasil era barulhento, pensava fechando a porta do quarto e desabando na cama, poucas horas que estava ali e seus ouvidos já pediam socorro. - Saudades Itália - pensava triste. Mas sabia que Londrina era mais tranquila que São Paulo. Liga para Augusto.

- Finalmente! - Ele atende impaciente - como assim ficar em São Paulo dois dias?

- Hey, calma que vou explicar.

- Estou aguardando Dona Maria Cecília. - Ah o Augusto não muda...

- Olha, quando eu saia da Itália, recebi uma proposta de trabalho aqui. 

- Trabalho? Como assim? 

- Pois é, não sei, alguém conseguiu meu contato, pelo que entendi é uma casa, acabaram de se mudar, ou vão reformar, não sei direito ainda, mas eles são daqui e topei me encontrar logo antes de ir para Londrina, e também achei melhor porque...

- Eu sei que você é viciada em seu trabalho, graças a Deus! - Lembrava dos outros vícios dela anos atrás quando usava a figura de Paloma Fortezza para se esconder de suas dores, trabalho era mil vezes melhor que isso.  - Então está tudo ótimo, quando você chegar em Londrina me avisa, eu mesmo vou te pegar, tudo bem?

- Perfeito! Saudades apertando aqui. - Passa a mão no peito. - E a mamãe? E o Arthur?

- Também estou ansioso para te ver - era sincero - Sônia está lidando bem com tudo, ela é médica, você sabe...já o Arthur está sofrendo com tudo, inclusive com medo de te encontrar...

- Não há motivos, passou. 

- Ele ainda se atormenta muito, mas vocês terão tempo. E o Matteo? - não poderia deixar de perguntar.

- Ele é forte...mas pessoalmente conversamos. Até daqui a dois dias, ou antes! 

- Te esperamos! 

- Ai, preciso de um banho! - Toma e desaba, acordando só na hora do jantar, lembrando que nem havia falado com Matteo nem com a cliente, a tal Jade. - Negócios primeiro!

Deixa uma mensagem no Whatsapp da cliente, estava cansada demais para ligar, envia o endereço do hotel e confirma que era realmente para almoçarem, no local de preferência deles. Retifica que se possível levassem a planta do local, fotos, todo material que tivessem reunidos para ela conhecer e poder em cima disso direcionar o trabalho. 

"Meu noivo também vai comigo, afinal a casa e dele, bem, será nossa e os seus pais também tem interesse nos seus serviços". Escreve em resposta.

"Perfeito, até amanhã querida!". Finaliza, estava cansada demais para se prolongar. Inclusive para falar com Matteo, deixando apenas uma mensagem de áudio rápida falando que estava tudo bem e que precisava dormir, sabia que lá ainda não era noite. Sentia saudades do pequeno Pietro, mas ligaria em um momento oportuno e falaria em chamada de vídeo com o mesmo. Adormece e sonha dessa vez num corredor escuro, com uma luz ao fim do túnel, era Sônia que estava lá, queria alcançá-la mas uma mão a impedia, mão cujo toque ela jamais esqueceu. 

Acorda às 10h da manhã com o barulho de muitas notificações. - MEU DEUS! Como é tarde, como dormi! Preciso correr! Não teria tempo de comprar nada, toma um banho, procura uma roupa formal, bom, todas suas roupas eram formais, mas aquele vestido azul turquesa de mangas curtas e cumprimento na altura dos joelhos lhe caia bem. Calça um salto nude, coloca seu relógio, anéis, pulseiras, era vaidosa. - Ai que saudades dos meus chapéus - suspirava. Se olha no espelho, o tempo havia sido generoso com ela, não tinha mudado quase nada por fora, apenas os cabelos mais louros como se tivesse trazido neles o sol da Itália. Quem diria que um dia aquela mulher que observava no espelho tinha saído de casa seminua? - Ah terrível juventude...pega sua maleta de trabalho, com seu Ipad, nele poderia mostrar os estilos com que trabalhava, as decorações diversas, o que já havia feito no exterior, ela sabia que a demanda era de um poder aquisitivo alto, então, mostraria o seu melhor, como sempre fez. 

Até que resolve ver a hora, quase 11:30 da manhã. - As mensagens! A cliente, Jade era a primeira, os outros teriam que esperar. "Estamos a caminho". Tinha enviado fazia alguns minutos. "Já estou a espera". Responde.

Sentada no hall de entrada vendo alguma revista qualquer, sente um leve toque no seu ombro.

- Maria Cecília? 

Ela olhava aquela mulher esguia, jovem e bonita a sua frente, sorri e responde - Jade, suponho? Levanta para cumprimentá-la. Como me achou tão fácil? - sorri.

- Pela elegância e sofisticação. Percebi fácil que era você. E só um comentário, você é mais jovem do que pensei! - Admitia.

- Ah, bondade sua! Vamos? - pegava sua bolsa e ficava ao seu lado.

- Claro, meu noivo está ansioso por vê-la. Ele só não pode descer aqui comigo... - começava a explicar.

- Trânsito, eu entendo perfeitamente. - Ou ele não queria se expôr, sabia que as pessoas ricas no Brasil tinham receio até da própria sombra. A garota ao seu lado era tímida, mas de sorriso fácil, logo se dirigem a um carro preto e percebe um motorista particular no volante que não deixa de cumprimentá-la e observar também sua desenvoltura. Ele abre a porta para as duas, Jade entra primeiro, tomando espaço ao lado do seu noivo e ela senta de frente para eles. Organiza-se no banco, ajeita o seu vestido, coloca a bolsa ao seu lado e olha para cumprimentar o homem que também era seu cliente. Susto, não podia ser. Mesmo que passasse anos ela jamais esqueceria aqueles traços, mesmo estando de óculos escuros, dentro de um estilo totalmente diferente do xadrez de sua época, ou das camisas em corte 'V', ela jamais esqueceria...o olhava com atenção e esperava a sua noiva fazer as vezes da etiqueta.

- Meu amor, essa é Maria Cecília Fortezza, a nossa futura arquiteta. - sorri. 

Ela observava Luan a todo momento, viu que o nome lhe causou choque, afinal fazia tantos anos...com a maior naturalidade do mundo, ela se desfez dos óculos escuros, estendeu a mão e sorriu com segurança dizendo: - Como vai Luan? Confesso que depois de tantos anos fora, não sabia que você seria a primeira pessoa conhecida que eu encontraria. - cumprimentam-se.

Para alivio de Luan que ainda estava boquiaberto diante daquela mulher tão familiar e estranha ao mesmo tempo, Jade toma o rumo: - Vocês se conhecem? - parecia não acreditar. Ambas esperavam ele falar e Jade o cutuca para ele sair daquele transe momentâneo.

- É, bem...assim...Nossa! - Ele não conseguia organizar uma frase, continuava observando aquela mulher a sua frente, que fez parte do seu passado, lembrava a Paloma, a ousadia, depois a simplicidade da Cecília no orfanato, e agora a exuberância e elegância se faziam presente. Lembrava rapidamente do que o Arthur fez, de como acabaram e por fim, da sua inocência provada por Augusto meses depois que o procurou pessoalmente para explicar tudo.

- Eu entendo Luan! Também estou surpresa. - Sorri gentilmente.

-  Cara, não dá pra acreditar! - Ele fala por fim.

- Agora eu estou curiosa. - Jade replica.

- Nós moramos na mesma cidade - Cecília responde - Londrina, anos atrás, meu irmão era amigo do Luan. 

- Nossa! O mundo realmente é pequeno - Jade acrescentava.

Ou apenas o destino começava a agir conforme suas regras. 







Regresso

Entrava naquele avião na certeza de que regressaria exatos 9.096 (Nove mil e noventa e seis) quilômetros para o que havia deixado pra trás. A viagem seria longa, mais precisamente 11h e 30min, por isso havia escolhido sair de lá a noite, na esperança que passasse mais rápido, escala direto para São Paulo e depois retornaria a Londrina, para a sua antiga residência, para o seu passado, mas de uma coisa tinha certeza, voltava mais forte, mais madura, e sem receios ou medo do que encontraria, na verdade ela nunca se isentou das notícias/mudanças em relação as pessoas que faziam parte do seu meio, isso o incluia. 


Sabia que já tinha um tempo que a parceria dele com Sorocaba tinha acabado. Quem diria! - E que eles não estavam mais em Londrina, residiam agora em São Paulo. Também sabia que ele namorava uma antiga namoradinha, depois de ter pegado metade do Brasil, mas nunca buscou se aprofundar nesse sentido. Os pais continuavam seguindo seus passos, a irmã tinha se tornado uma mulher linda, formada em moda como sempre sonhou. No fundo estava feliz por todos eles, quanto a ela, também se sentia extremamente satisfeita com o que tinha se tornado. Ah, como é bom o recomeço. Pensava. Nesse momento estava indo para Londrina e não teria o que temer. Não se cruzariam, era um cantor bem sucedido, e ela naquele momento era uma pessoa extremamente comum e estranha em um país antigo.


 Lembrava quando fez o inverso, os medos e receios que sentia do recomeço. Tão assustada, tão machucada...agarrou aquela oportunidade sem receios. Tinha amizades com antigos colegas que fez enquanto estudou fora na infância e adolescência, e seu professor orientador também lhe deu força e conseguiu logo ingressar no mercado de trabalho Europeu. Quem diria? - Focou tanto no trabalho, tanto que se não fosse a beleza da cidade que escolheu para viver, não teria se dado um minuto de folga, e conseguiu sua mini fortuna nesses longos oito anos, com orgulho de nunca precisar nesse momento da herança de seu pai, ou de qualquer ajuda financeira do Brasil. Napólis era um encanto a parte. Acolheu suas fragilidades e a fortaleceu, inclusive para esse momento, onde a mulher que tanto lhe deu, tinha infelizmente, data para partir. 

Ah Sônia! Porque tão cedo? Você ainda é tão jovem...lamentava pela mulher que lhe criou e a qual tinha retornado a chamar de mãe tão naturalmente. Lamentava o fato de ter passado tantos natais longe dela, de não ter acompanhado o casamento do irmão, o nascimento dos sobrinhos, as vitórias de Augusto como profissional, mas agora retornava, pensando ainda em Pietro e Matteo, mas na certeza de que ele era exatamente como ela, ciente de suas dores, capaz de guardá-las para sempre sem demonstrar mais sofrimento. Possuíam o dom inabalável da fortaleza, e ria lembrando do seu sobrenome que fazia jus exatamente a isso Fortezza.

Na tranquilidade da madrugada adormeceu, sabendo que quando acordasse, tudo seria novo naquele mundo velho. Ansiava por vivê-lo da melhor forma possível, por ela, pela sua mãe.


- Luan! Você não vai acreditar no que eu tenho pra te dizer! - Falava eufórica no telefone.

-  O que houve Princesa? - Ele nunca tinha chamado mais ninguém de 'meu amor'. 

- Eu consegui falar com a arquiteta, vamos nos ver em breve!

- Mas ela não mora fora do país?

- Pasme, mas na hora que liguei ela estava embarcando para o Brasil e disse que quando chegasse aqui entraria em contato comigo.

- Nossa, isso é ótimo!

- Quero que você esteja junto, afinal a casa é sua...

- Será nossa um dia. - Sorri e percebe o sorriso dela do outro lado. - E ó, acho que minha mãe também vai querer os serviços dela, então já pegamos o pacote todo.

- Perfeito amor! Você terá o resto dos dias de folga?

- Uhum, depois da gravação, sou todo seu. - só consegue ouvir a risada do outro lado. 


Maria Cecília sonhava que estava no antigo orfanato em Londrina, acabando de pintar a casa na árvore, seu primeiro projeto, tão simples mas cheio de significados fazia calor, Augusto tinha ido pegar água para ambos, mas ele também estava lá, sujo de tinta em volta a um silêncio interior cheio de dúvidas, absorto em um abismo, em seguida vira concentrado para ela, e perguntava com receio: - Maria Cecília, mesmo depois de tanto tempo longe, você ainda me ama?...Batidas de leve no seu ombro a despertam. 

- Signora, Signora? - Ela abria os olhos lentamente -  Mi scusi, ma siamo appena arrivati in Brasile.  A aeromoça acabava de avisar que haviam chegado, pegou sua bolsa de mão e partiu para o desembarque.

Barulho, movimentação, palavrões. Isso é Brasil! Pensava rindo enquanto aguardava a sua bagagem. Havia trazido pouca roupa, aproveitaria que estava em São Paulo e compraria algumas coisas por lá mesmo, afinal, estava vestida com seus tons pesados que tanto amava, mas ainda assim quentes para o Brasil, precisaria de algo mais leve. Enquanto processava tudo isso, lembra da ligação que recebeu antes de sair. - Nossa, seria bom retornar, eu não sei de que parte do país a pessoa é, se fosse aqui em São Paulo seria perfeito, eu adiaria a volta para Londrina por uns dois dias e resolveria o início desse trabalho logo.

Augusto tinha pedido que ela ligasse de imediato para ele quando chegasse, mas ela resolve tratar logo dessa pendência e ir para Londrina mais aliviada. Pega o telefone e disca, parece que a pessoa ansiava por isso, pois atende de pronto!

- Oi senhora Fortezza! Que bom que retornou a ligação...

- Pois é...Jade - falava o nome em dúvida com medo de ter errado pois não havia salvo - eu acabei de desembarcar em São Paulo e entrei em contato logo porque daqui irei para Londrina e não sei de que parte do país você é, apesar que o DDD é daqui mesmo de São Paulo...

- Isso, estamos em São Paulo! E disponíveis para você nos encontrar quando quiser...- não continha a euforia.

- Perfeito! Mas antes de mais nada, não precisa me chamar de senhora, apenas Maria Cecília - ria sutilmente - e eu preciso achar um hotel antes, não esperava que ia ficar por no mínimo dois dias, então como são quase meio-dia, e preciso resolver essas pendências - e ela não queria ficar dois dias em São Paulo - podemos nos ver amanhã? Eu não conheço nada por aqui, passei muito tempo fora e...então você me pegaria no hotel?

- Sem problemas! É só passar o endereço.

- Enviarei assim que conseguir um! Até mais!

- Até! Fico no aguardo. - LUAN! Ela, grita alto - Amanhã almoçaremos com a arquiteta!







"O destino baralha as cartas, e nós jogamos".

- Ela virá? - Arthur conversava com Bia e Augusto que afirmava que sim com a cabeça. Nossa, tantos anos, é como se voltássemos de onde paramos...

- Não Arthur, muita coisa mudou, sua irmã definitivamente mudou, perdoou a todos, ama seus filhos, você sabe. O Theo e a Malu são loucos pela tia, imagina a alegria deles ao verem ela pessoalmente pela primeira vez, o quanto a Sônia ficará...- se emociona.

- Arthur - agora era Bia quem falava - apenas você se martiriza, o tempo passou, envelhecemos, amadurecemos e ninguém melhor que a Cecília para nos dar o exemplo de recomeço, já se foram oito anos, eu sei que encarar a realidade disso tudo não é fácil, sua mãe...sua irmã de volta já que não tiveram uma conversa definitiva no passado, mas ela passou por cima de tudo pelo recomeço que ela merece, e ela merece um novo recomeço ao nosso lado. - Ele afirmava com convicção ainda de ombros baixos. 

- Então, vamos contar para a Sônia? - Augusto levantava decisivo.

- Não, vamos esperar minha irmã chegar, e fazer a surpresa. A mamãe ainda está bem, nossa nem parece que ela está doente, se eu não visse aqueles exames... - fala desconsolado enquanto Bia o abraça. 

- Tudo ficará bem, estaremos juntos nessa. 


Ainda no Brasil...


- Alô? Pai?

- Oi filho? Como você tá?

- Cansado. - Falava deitando ao lado de Jade na cama de hotel depois do show. - Mas preciso saber, e como estão as coisas para a nossa casa em São Paulo? - falava preocupado enquanto sua namorada trocava de canal. 

- Olha filho, sinceramente só falta um bom arquiteto para ingressarmos na etapa final. 

- Isso eu vou deixar para a Jade resolver, ela tem bom gosto. - Fala abrindo um sorriso para a mulher que estava ao seu lado. 

- Tá okay filho, manda um abração pra ela, estamos todos com saudades. Te amo!

- Te amo pai, dá um beijo na mãe e na Bruna! - Desliga. 

- Bom, é isso Princesa, você precisa arranjar um arquiteto bom. - Sorri virando para a namorada. 

- Problema é encontrar... - para absorta em um canal do exterior. - Essa seria a arquiteta perfeita! - Suspira olhando a imagem na TV. 

Luan começa a prestar atenção, mas era Italiano, ele não compreendia. Só via uma mulher bonita na TV dando uma entrevista em uma igreja. - Quem é ela? - Aponta. 

- Uma arquiteta que mora na Itália, ela é brasileira, mas fez carreira lá e trabalha de todas as linhas de decoração, desde a modernista, pós-modernista à tradicional. Luan, ela conseguiu reformar a Basílica de São Pedro depois dos atos de vandalismo e ficou perfeito! - Falava eufórica.

- Humm...- olhava aquela mulher de perfil, mas não a reconhece, algumas coisas não mudam ao longo dos anos e a distração dele era uma delas - porque você não entra em contato com ela, talvez ela aceite o trabalho...

Os olhos de Jade saltam de satisfação: - Você acha que...

- Só sabemos tentanto, ué? E eu quero me mudar logo... - sorri cansado.

- Tá bem, amanhã tento encontrar essa mulher e se conseguirmos, acredite e confie em mim, vai ser incrível!

- Eu confio em você! Vamos dormir? Amanhã tenho gravação na TV e... - já adormecia, mal sabendo o que o destino lhe reservava mais uma vez...

Na Itália...

Pietro estava tristonho, cabisbaixo e deixando o coração de Maria Cecília completamente quebrado. - Nós nos falaremos todos os dias pequeno, e assim que eu resolver as coisas por lá, volto pra te ver.

- Promete? - Falava fazendo bico.

- Prometo! - Agora olhava para Matteo - Tem certeza que não vai ser um fardo cuidar das minhas coisas? - Se referia a seus bens que deixaria temporariamente para trás.

- Não se preocupe, cuidarei de tudo para você. 

- Quanto as contas, você pode movimentar minhas finanças que deixei por aqui, tive que converter algumas coisas para o Brasil, mas acho que o que tem é suficiente para pelo menos um ano.

- Esperamos que seja apenas alguns meses. - sorri. 

- Também espero. Tentarei pegar alguns projetos que me ofereceram e darei assistência à distância, e quem sabe ainda não consigo algo por lá, adoraria de verdade deixar minha marca em algo no Brasil, algo bom, que traga felicidade e...

- Vamos ver o que o destino está aguardando para você. - Ri no fundo com pesar.

Toca o telefone.

- Nossa - olha o visor - é do Brasil, mas...não faço ideia de quem seja - atende com receio. - Alô? - 

A voz do outro lado respondia em dúvida: - É...oi...estou falando com a Cecília Fortezza?

- É ela.

- Me chamo Jade...Jade Magalhães e gostaria de saber se você se interessaria em desenvolver um projeto para nós aqui no Brasil, estamos com uma reforma e precisamos de uma boa arquiteta e já ouvi falar de você, especialmente depois da reforma no Vaticano e...mas não sabemos se você pega projetos a distância. 

A mulher do outro lado parecia muito tímida, mas Cecília responde sem acreditar: Jade, não sei se é seu dia de sorte, mas estou nesse exato momento voltando para o Brasil por um tempo e assim que me instalar lá tornamos a conversar, tudo bem pra você? - Ela achava ótimo a ideia de além de estar mais uma vez com sua família, mesmo em péssimas circunstâncias, teria como ocupar a mente com trabalho.

- Nossa! Que perfeito! Claro que esperarei por você!

- Até breve, então. - Desliga - Você não sabe o  que aconteceu...- falava sem acreditar no que tinha acontecido.

- Destino mio amore. Não se pode fugir dele - afaga seus cabelos gentilmente. 


As cartas estavam embaralhadas, agora era chegada a hora de jogar, e nesse jogo, como em todos os demais, alguém vai perder. Não se pode jogar com o destino.

Memórias

Um filme passava por sua cabeça, Sônia era uma mulher espetacular. Nunca a julgou, sempre esteve ao seu lado mesmo quando ela foi a sua maior vergonha. Bem, até Arthur ter tomado seu posto. Ela ria. Sim, ria porque o tempo é senhor de todas as coisas...e se ele não cura em sua maioria ele ameniza muito dos nossos sentimentos. Havia saído de casa pela manhã, para entregar seu projeto incrível, havia conquistado uma fama espetacular na Europa, começou com pequenos trabalhos e logo se viu com projetos monumentais. Construiu com seu talento sua própria fortuna e sucesso. Claro, tudo isso bem alicerçada com muitas lembranças do seu passado, que não fez questão de apagar nenhuma, das mais profanas, as mais doces e doloridas. Faziam parte do que ela era. 

Absorta em suas lembranças em meio as paisagens italianas que tanto a cativavam, lembrava da sua última conversa com Sônia, do apoio que recebeu ao decidir um novo recomeço, longe de tudo, da docilidade que a tratou, da clareza ao dizer que perdoava o irmão por tudo, também perdoava o...não conseguia ainda pensar em seu nome, mas não havia apagado a imagem do garoto daquela época da sua mente, hoje um homem de sucesso. Perdoava a todos e seguia em paz, sabia o sacrifício que seria, os natais, as festas de fim de ano, as datas comemorativas, o casamento da melhor amiga com o irmão, as conquistas pessoais de Augusto e a alegria dele ter encontrado um amor para dividir a vida, o nascimento dos sobrinhos, tantos momentos...deixar seus dois amigos, Bia e Augusto, deixar seu Sebastian - lembra com dor quando ele adoeceu e não resistiu, a mesma dor quando soube que o orfanato fechou... Perdeu muito disso tudo, mas não se arrependia, ela se fez forte, sobreviveu, e voltaria pela Sônia, não iria desperdiçar seus últimos meses de vida, faria com que fosse os melhores, por ela, por todos ao seu redor. 

Chega em casa e a criança de olhos claros vem ao seu encontro gritando: Papai, ela chegou! - Gritava pela casa se jogando em seus braços e girando as gargalhadas.

- Estava com saudades de mim Pietro? - O abraça forte como se fosse o último enquanto a criança linda de 5 anos a abraçava com força e afirmava com um leve balanço na cabeça. 

- Eu também estava com saudades - um homem alto, forte de cabelos loiros toma forma a sua frente e dá um leve selinho em sua boca enquanto a criança comemora o feito. Como foi seu dia? Suponho que satisfação foi o mínimo que sentiu, eu vi a sua entrevista na TV e...

- Ai, nem me lembre, foi surreal, foi a melhor coisa que fiz na vida - lembra com dor agora da casa na árvore para as crianças.

- Não tenho dúvidas! Mas algo está te afligindo, você está...preocupada? - Como em poucos anos ele a conhecia tão bem?

- Estou, mas depois do banho e do jantar a gente conversa. E o cheiro está maravilhoso!

- Vai lá mi amor, te esperamos, vem com o papai terminar o jantar?

A criança salta em seus braços sem nem pensar. - Tudo ficará bem, estou ao seu lado. - Ela não tinha dúvidas disso.

Subia as escadas com um leve pesar no peito, fazia apenas um ano que dividia aquele espaço com Matteo. Lembra de como tudo começou, antes de se envolverem como casal, ele administrava o vinhedo da família, mas também entendia de arquitetura, de música, de dor e sofrimento...Havia ficado viúvo, perdeu a esposa por uma enfermidade banal,, infecção e ficou sozinho com o filho. Se conheceram quando Cecília foi lhe prestar serviços, ele estava se mudando para um espaço menor e queria a ajuda da arquiteta que além de ser bem paga, tornou-se amiga e querida por seu filho. 

Pietro era um encanto, doce, afável, e muito esperto. Cecília lembrava que tinham semelhanças, ambos não tinham a mãe biológica e era triste, então supriu até aquele dia a ausência da mãe dele...cuidou dele e do pai, mas nunca escondeu suas raízes, Matteo sabia de tudo de sua vida, suas dores e amores, suas dificuldades e medos, inclusive em se relacionar, era uma mulher bem sucedida, não podia negar e ele ofertou seu coração, por um tempo, depois sua casa, e seu carinho, e ela aceitou, era adulta e decidida, mas talvez...nunca tenha criado raízes ali mesmo, e Matteo bem sabia disso.

Era capaz de ouvir o som da lareira que projetou lá embaixo, era uma sensação estranha de que nunca tinha pertencido ali, mas que foi um tempo necessário, Matteo foi necessário nesse último ano, assim como Pietro...como doia saber que não o veria tão cedo...mas era chegada a hora. Jantaram, contaram histórias, riram, e logo a criança dormiu angelicalmente. Era hora da conversa.

- Cecí, pode me contar agora como foi seu dia?

Ela começa do início, passando por todos os fatos até chegar ali, completamente imersa no que haveria de encontrar, e no que estaria deixando, para sempre talvez?

- Você entende que eu não posso deixar de estar esses seis meses com ela não é?

- Cecí, você foi uma das melhores coisas que nos aconteceu nesse tempo, mas... - olhava compreensivo demais - você nunca pertenceu a nós. É como se o destino algum dia fosse te chamar, e chamou.  - Ela lembra das palavras do Padre mais cedo. - Nós te amamos, e faça o que for necessário para o momento e o após. 

Ela encarava aquele homem forte a sua frente, assim como ela acostumado com as dores que a vida lhe causava, aceitava-as de bom grado, sabia de cada etapa de sua vida, ambos sabiam, e ambos também sabiam que tudo que viviam até ali era cercado de incertezas, mas tinham Pietro, como um laço puro e simples de união, e nada poderia tirar aquilo. 

- Mas e o Pietro? - Ela perguntava preocupada. 

- Bom, ele irá sentir falta, claro, mas talvez não seja um para sempre, temos a internet e você sempre o terá quando quiser. 

- Eu não sei como encontrarei as coisas por lá, na verdade eu sei, mas não sei se realmente ficarei, eu construí uma vida aqui, tem vocês e...

- Não se luta contra o destino, esteja em paz, vá cuidar do que é seu, você já cuidou tanto de nós e serei sempre grato, por tudo, pelo Pietro e pela companheira que foi nesse período todo, precisávamos um do outro, o tempo vai dizer se realmente continuaremos ou não, se esse for nosso destino não tem como escapar, assim como se a volta for o seu, a permanência será inevitável. Nós te amamos. - A abraça por fim.

- Eu também amo vocês, muito. Obrigada!

O amor faz passar o tempo; o tempo faz passar o amor. Provérbio italiano

Era mais um dia de sol e muito frio, incrível como não tinha acostumado a isso ainda. O sol latente no céu azul e a brisa gélida que fazia todos se agasalharem com roupas pesadas em suas fibras seus tons para se protegerem. Nossa Cecília! Quase oito anos e você ainda não acostumou? - Pensava rindo enquanto caminhava rumo ao seu carro. De Napólis onde morava a Roma era um salto, e como ela amava atravessar aquela cidade linda e histórica de prédios fascinantes todos os dias, para uma boa arquiteta, era um bálsamo diário de inspiração. Dirigia com os cabelos ao vento, o frio queimando sua pele, não se importava, havia dores maiores que aquela e que como sempre não valia a pena lembrar, afinal já havia muito tempo de tudo.

Buongiorno! Buongiorno! Cumprimentava à todos e sorria descompromissadamente! Como ela amava atravessar a praça de São Pedro completamente vazia em relação a outros dias, contemplar aquela imensidão monumental era de uma sensação incrível! Ah como deslumbrar o belo me faz bem! - pensava. Estava indo para a última etapa do seu trabalho que já vinha a meses. A alta cúpula de Roma contratou os seus serviços para uma pequena reforma e sabia que ela era uma arquiteta que transitava por várias tendências, com especialidade no modernismo, mas para preservar o tradicional, o belo, o secular, não haveria pessoa melhor. A arquiteta do Vaticano! Quem diria! Pensava na vida profana que havia levado anos atrás, envergonhada, e hoje conquistava sua redenção longe de tudo, um recomeço digno de céu. 

- Ansioso para ver como ficou tudo Padre? - Perguntava sem conter a alegria.

- Claro minha filha! Acredito que seu trabalho é no mínimo digno dos céus. 

- Bondade sua! Mas vamos logo ver! - Andava apressada. 

 A basílica de São Pedro havia sofrido um ato de vandalismo, lamentável e que chocou a todos e o Papa queria que a reforma não perdesse a essência dos séculos. Cecília havia conseguido, tudo permaneceu como nada tivesse acontecido. 

- Excelente trabalho! O Papa vai ficar encantado, que Deus abençoe você minha filha, você realmente possui um dom divino. O Padre Gabrielle a elogiava. 

- Obrigada Padre, foi um dos trabalhos mais incríveis que pude realizar - lembrava com saudade da simplicidade de uma pequena casa na árvore que um dia planejou e olhava para o monumento a sua frente, como havia chegado longe. 

O Padre começava a falar da abertura do local novamente a visitações e celebrações, e que queria a sua presença até que ambos são interrompidos com o toque de um telefone. 

Ela olha no visor e era chamada do Brasil...Que estranho, Augusto a essa hora. Atende. - Alô?

- Como vai a minha arquiteta preferida? 

- Ah, para! Estou bem aqui em Roma de frente para minha obra final - mal sabia ela o peso daquela afirmação - finalmente acabamos, a basílica está pronta, como sempre foi!

- Uau! Imagino o quanto incrível deve estar! 

- Irei te mandar algumas fotos daqui a pouco, mas...- ela sentia um tom de preocupação na voz - o que está acontecendo afinal?

Como ela era esperta, sempre foi! Não adiantava postergar, teria que ser direto, e conhecendo bem Maria Cecília Fortezza, que tinha conseguido a estabilidade emocional que qualquer um invejaria, mas ainda assim isso a abalaria. - É a Sônia...

- O que houve com a Mamãe? - Fala um pouco alto.

- Cecília, eu acabei de avaliar uns exames da Sônia e...ela está com câncer - Era perceptível apenas a respiração pesada do outro lado da linha.

- Augusto - fala com pesar - é grave?

- Muito. 

- Quanto tempo?

- Não sabemos ao certo, mas pela minha experiência seis meses no máximo. - Ela treme do outro lado - é no pâncreas, bastante agressivo e eu liguei na intenção de...

- Eu entendi Augusto, eu...só preciso me organizar e...

Era incrível como eles tinham ainda a velha sintonia de em poucas palavras compreenderem o certo a se fazer. 

- Esperamos você. 

- Então até breve. 

O Padre entendia Português e questionou preocupado: - O que houve minha filha?

- A minha mãe Padre, está doente - falava ainda sem acreditar - o médico me ligou e disse que são no máximo seis meses de vida.

- Você vai voltar?! - Perguntava em tom de afirmação.

- Sim, é o certo a se fazer - não conseguia disfarçar o desconforto, ela iria voltar um dia, mas não achava que seria por esses motivos. Nossa, quanto havia perdido nesses oito anos? Se soubesse que ela teria tão pouco tempo de vida talvez...

- Minha filha, se tem algo que não podemos fugir é daquilo que estamos destinados...

E ele estava coberto de razão.


Um breve, antes dos anos depois...

Sim, Luan viu as fotos, toda a armação de Arthur e como era de se esperar, acreditou. Brigas, discussões, desentendimentos, explicações óbvias que não eram aceitas. Afinal, quem tem o peso do sobrenome Fortezza, acreditem, carrega o peso da exposição de todos os seus males como estigmas, brincar de Paloma e se esconder numa armadura em algum momento teria seu preço, e foi pago alto demais...a vida cobra nossas dívidas em algum momento, cedo ou tarde...

Alguns envolvidos e vários caminhos a serem seguidos, restava dar o primeiro passo. O primeiro foi Luan, sua carreira não poderia parar por causa do seus problemas pessoais, era grato por não terem assumido nada publicamente, guardou a dor no bolso e seguiu fingindo ser forte.

Augusto, sempre integro tinha a confiança de Sônia que sabia que aquilo mais do que nunca era armação do seu filho, juntos, meses após o acontecido e vendo a reclusão de Maria Cecília, resolveram tirar tudo as claras, com a dolorosa ajuda de Bia, e desmascararam a fraude, em vão, algumas coisas não poderiam ser retomadas com facilidade.

- Você agora sabe que foi seu irmão, o idiota fez a montagem, que tipo de ser humano é esse?

- O Arthur sendo ele na sua melhor versão, nada me surpreende. Fala desinteressada. 

- Então é isso? Augusto questiona observando ela fazer carinhos no seu pet com o mesmo ar de desolação que a acompanhava a meses. 

- Augusto, eu sei que vocês todos esperavam uma reação mais...ativa em relação a mim, de querer ligar para ele - evita falar o nome - de me explicar e dizer que tudo foi um mal entendido. Mas eu estou cansada - falava com sinceridade. Grata pela Sônia saber quem é o filho de fato, a Bia também, mesmo ela continuando ao lado dele...Mas esse é o meu preço, brinquei demais vivendo a vida da Paloma e aqui não dá mais pra mim, na verdade nunca deu...

Ele sabia onde exatamente ela queria chegar... - Mas o lance Inglaterra foi par ao espaço, você perdeu o prazo depois que tudo aconteceu...

- Eu sei...você confia em mim não é mesmo? - Ela perguntava enquanto segurava agora sua mão.

- Claro que sim,  e sei que o que tiver de fazer é o certo. 

- Obrigada, isso era tudo que eu precisava ouvir! Mas...precisarei e muito de sua ajuda, tenho coisas importantes que ficarão sob sua responsabilidade, e tenho medo de ser um fardo...- falava preocupada.

- Amigos, lembra? Só peço que me dê permissão para no futuro, daqui a um tempo esclarecer...

- Claro Augusto! Depois que eu estiver a milhas de distância daqui pode fazer o que seu coração achar que é o certo, terá sempre meu apoio. Só cuida de tudo pra mim? O que pretendo fazer não tem tempo determinado...

- Eu prometo. 

- É o suficiente. 




O princípio do fim

Oi, pois é. Eu não sei se alguém vai ler isso aqui algum dia, mas fazem exatos 8 anos que parei essa história e hoje em pleno 2020, como sabem, ou saberão se você vir do futuro, estamos passando por uma quarentena devido a pandemia mundial e retomei a coisas do passado que me faziam bem, que me traziam boas memórias, e por vários motivos do passado que não valem a pena serem escritos aqui, parei, pois é, parei uma história que escrevia com tanto apreço e retomei saudosa em meio a isso tudo que vivemos acabei de ler novamente e pensei...como seria o final? 

Primeiramente escrevo para ter esse consolo pessoal, e se você chegar aqui, fico feliz que o tenha também, afinal, toda história merece um final feliz. Inclusive a nossa. 

Vale ressaltar que o blog é simples, escrevo pela necessidade, pelo ócio, para ocupar a mente nesse momento de desolação e também por dar uma chance a essa história que acreditem, eu escrevi e quero saber o final, talvez apenas eu leia, mas quem sabe alguma leitora do passado também a retome, caso aconteça, deixe seu registro nos comentários, adorarei ver.

Com carinho, Vanessa.